sábado

Alguns poemas de O´Neill

















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sexta-feira

Vale sempre a pena ler os clássicos. Evocação de Vergílio Ferreira - via crónica de Ricardo Araújo Pereira

Resultado de imagem para vergílio ferreiraNota prévia

É útil que quando lemos um texto rico em ingredientes picantes, na forma e no conteúdo - lhe possamos acrescentar algo. Eis o que tentarei fazer recorrendo, mais uma vez, à ajuda de Vergílio Ferreira. E com isso não procuro, de modo algum, equiparar o pequeno arquitecto ao grande escritor que deixou um imenso legado. Seria, aliás, uma tremenda injustiça para o escritor, naturalmente... 

E é a propósito de iniciais, lapsos e outras regras da gramática que, um dia, Vergílio Ferreira teve de cortar a tempo a cedilha ao nome de um aluno, quando estava a fazer a chamada, chamando-lhe simplesmente Pica.

E de uma aluna com o apelido imprevisto de Cagarelho, e após ter verificado o nome dos progenitores notou que o da mãe era Peixa Maria Cagarelho

Depois disso, prossegue Vergílio Ferreira, descreve que um médico amigo lhe contara que no hospital estavam duas doentes juntas chamadas Catarina. Uma era Catarina Rabada Marmelada; e a outra era Catarina Cagau Vermelhuda - portanto em estilo de hemorroidal, conclui VF. 

No fundo, é para aí que nos conduz o próprio arquitecto..., donde, aliás, ele nunca saiu. 


Esta crónica de RAP pode ver-se aqui



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segunda-feira

Evocação de Arturo Pérez-REVERTE

Resultado de imagem para arturo perez reverteO ser humano tem que estar preparado para o pior. É o preço que se paga por estar no mundo. Temos de aceitar isso da mesma forma que buscamos e aceitamos a felicidade e a utopia de que nascemos para nos amarmos e beijarmos na boca uns aos outros. Se aprendermos a viver com o horror, encontramos um sentido prático para a vida. O ser humano é um filho da puta. Assumamos esta realidade e aprendamos a viver com ela.


MilFolhas (Público) / 20060304
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sábado

Evocação de Blaise Pascal

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Poucas amizades subsistiriam se cada um soubesse aquilo que o amigo diz de si nas suas costas.
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Blaise Pascal
França 
19 Jun 1623 // 19 Ago 1662 
Filósofo, Matemático 

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sexta-feira

Albert Cossery



"GOSTARIA QUE DEPOIS DE ME LEREM, AS PESSOAS NÃO FOSSEM TRABALHAR NO DIA SEGUINTE"

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Guterres: o papa-léguas da ONU

Nota préviaCandeia que vai à frente alumia duas vezes...

- A oratória estruturada de Guterres é, de facto, imbatível. Resta saber se quando for eleito ele se proporá, de facto, implementar as medias e reformas da ONU que sustentam o seu discurso de candidatura à única organização com vocação verdadeiramente planetária.

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António Guterres

António Guterres vence quarta votação para secretário-geral da ONU

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quarta-feira

As Amoras - por Eugénio de Andrade -




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Resultado de imagem para amoras, eugénio de andradeAs Amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.      
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
    
                   Eugénio de Andrade ("O Outro Nome da Terra")


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segunda-feira

Vergílio Ferreira - Manhã submersa

O livro: há muito tempo que olho para este livro e sinto que te pertence, não me perguntes porquê...
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É como se caminhasse contigo a meu lado, caro Vergílio Ferreira
MaL-Cig., k

(...) Quando algum de nós se afastava para dentro de si próprio, logo a vigilância alarmada dos prefeitos o trazia de rastos cá para fora. Os superiores sabiam que, à pressão exterior, cada um de nós podia refugiar-se no mais fundo de si. Como sabiam também que a descoberta de nós próprios era a descoberta maravilhosa de uma força inesperada. Nenhuns sonhos se negavam ao apelo da nossa sorte, aí na nossa íntima liberdade. Por isso nos expulsavam de lá. Mas, uma vez postos na rua, havia ainda o receio de que as nossas liberdades comunicassem de uns para os outros e ficassem por isso ainda mais fortes. E assim nos obrigavam a integrar-nos numa solidariedade geométrica, ruidosa e exterior como de ladrilhos.
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Uma lição de Albert Cossery, again

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[...]
- "Qual é a arte de viver?"
- "Desprender-se de tudo o que nos ensinam, de todos os valores e dogmas".


- "O que é que caracteriza a arte de viver das personagens que criou?"- "Em primeiro lugar, a falta de ambição. O que mata as pessoas é a ambição. E também esta tendência para a sociedade de consumo. Quando vejo publicidade na televisão, digo para mim próprio: podem apresentar-me isto anos a fio que nunca comprarei nada daquilo que mostram. 


Nunca desejei um belo automóvel. Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sentir-me um príncipe. Não é a posse de bens materiais que pode satisfazer um homem inteligente, que compreendeu o mundo em que vive".
[...]
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sexta-feira

Racionalismo existencialista


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E eu disse-lhe: o melhor da vida é o seu impossível. E ela disse-me: isso não tem sentido nenhum. E eu dei-lhe razão, mas não sabia porquê. Ou seja, pela melhor razão que podia ter.

in VF, Pensar

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A genialidade de Guilherme Shakespeare transposta para a tragédia da Ponte-de-Sôr

Resultado de imagem para shakespeareNota prévia: Da análise ao posicionamento social da família da vítima e do seu advogado ressaltam duas ideias encadeadas: 1) a importância maior da indemnização; 2) e a ideia segundo a qual o maior bem a salvaguardar não será a punição, mas o ressarcimento, logo a indemnização. No fundo, duas ideias que desaguam numa só: no dinheiro, que será, seguramente, relevante para prover os cuidados de saúde da vítima, mas o advogado deste, salvo melhor opinião, deveria equacionar uma estratégica mais abrangente e ambiciosa, ou seja, o dinheiro é um vector crucial no tratamento da vítima, mas a sociedade, regulada e enquadrada por leis, deveria preocupar-se, acima de tudo, em aplicar a lei civil e criminal ao caso em concreto, e não, como parece desenhar-se, que a uma pena mais suave (negociada entre as partes) corresponderia uma indemnização mais choruda para a família da vítima, que é carenciada. 

Em suma: a família da vítima deverá preocupar-se tanto com o dinheiro que irá receber resultante do apuramento da indemnização pelos danos físicos, morais, etc, mas também deveria estar focada na sanção aos agressores, caso venha a provar-se que a vítima foi quase mortalmente espancada numa posição que não configura legítima defesa por parte dos agressores. No meio de tudo isto, fiquei confuso com a posição do advogado da família da vítima.
Não quero crer que se esteja apenas a pensar em honorários..
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O Vil Metal

Timão: Ouro amarelo, fulgurante, ouro precioso! (...) Basta uma porção dele para fazer do preto, branco; do feio, belo; do errado, certo; do baixo, nobre; do velho, jovem; do cobarde, valente. Ó deuses!, por que isso? O que é isso, ó deuses? (...) [O ouro] arrasta os sacerdotes e os servos para longe do seu altar, arranca o travesseiro onde repousa a cabeça dos íntegros. Esse escravo dourado ata e desata vínculos sagrados; abençoa o amaldiçoado; torna adorável a lepra repugnante; nomeia ladrões e confere-lhes títulos, genuflexões e a aprovação na bancada dos senadores. É isso que faz a viúva anciã casar-se de novo (...). Venha, mineral execrável, prostituta vil da humanidade (...) eu o farei executar o que é próprio da sua natureza. 


William Shakespeare, in "Timão de Atenas" 
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CARLOS DIOGO SANTOS02/09/2016 08:17
in jornal I



A família de Rúben Cavaco não vai ser dura na justiça com os filhos do embaixador iraquiano. O i sabe que a estratégia da defesa passará por ir decidindo a cada passo qual a melhor saída, de modo a que sejam reparados os danos causados ao jovem. “De que nos serve que sejam presos”, questiona uma fonte da família que preferiu não ser identificada, mas que confirmou ser também essa a política do advogado que escolheram, Santana-Maia Leonardo.
Longe vão os dias em que o advogado criticava na imprensa a tese de Ridha e Haider, os dois filhos do embaixador do Iraque em Lisboa. A posição que definiu logo após o espancamento – refutando a hipótese de se tratar de um episódio de legítima defesa – deu lugar a uma bem mais favorável aos interesses dos estrangeiros.
Contactado pelo i, o advogado não quis prestar declarações sobre esta matéria, mas fonte familiar garante que Santana-Maia tem repetido a ideia de que é preciso perceber o “país onde estamos”, referindo que em Portugal, muitas vezes, as pessoas são condenadas a pagar indemnizações e não cumprem.
Para a defesa, mais importante do que a prisão – caso haja levantamento da imunidade – é o ressarcimento. Até porque, explicam pessoas que conhecem a família, trata-se de um agregado pobre que ainda não sabe se o jovem precisará de acompanhamento para o resto da vida: “De que servem sentenças bonitas do tribunal?”(...)
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quarta-feira

Evoc. de António Ramos Rosa -


A Festa do Silêncio

Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde" 

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domingo

David Mourão-Ferreira - E por vezes -

Blue-yellow-sombreado

E por Vezes

E por vezes as noites duram meses 
E por vezes os meses oceanos 
E por vezes os braços que apertamos 
nunca mais são os mesmos    E por vezes 

encontramos de nós em poucos meses 
o que a noite nos fez em muitos anos 
E por vezes fingimos que lembramos 
E por vezes lembramos que por vezes 

ao tomarmos o gosto aos oceanos 
só o sarro das noites      não dos meses 
lá no fundo dos copos encontramos 

E por vezes sorrimos ou choramos 
E por vezes por vezes ah por vezes 
num segundo se evolam tantos anos 

David Mourão-Ferreira, in 'Matura Idade' 

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Da lassidão em Diplomacia


Do laxismo do nosso MNE no caso do jovem agredido em Ponte-de-Sôr
O que de pior pode acontecer a um ministro não é fazer um diagnóstico errado duma situação, sub ou sobrevalorizar uma variável em política, omitir correlações essenciais ou mesmo secundárias no processo de tomada de decisão. 
- O que de pior pode "entalar" um titular de cargo público (e humilhar uma nação inteira) é ser ultrapassado pelos acontecimentos... 
- Quando Santos Silva (MNE) quiser levantar a imunidade diplomática dos agressores iraquianos, já que o Governo poderá evocar essa figura dado tratar-se dum crime e não um acto decorrente de prática diplomática (logo não coberto por convenções), já os "pássaros agressores" estarão a rir-se no Estado de origem, enquanto que o jovem português se encontra às portas da morte no Hosp. Sta Maria e sem a devida protecção jurídica do Estado português que o deveria proteger e acarinhar. 
- Confesso que esta lassidão ou mesmo laxismo da parte do nosso MNE, um académico de boa preparação intelectual, me surpreende pela negativa. Será que estarei a ver mal o filme ou algo me escapa...
- Ou será que estão à espera que a vítima das agressões morra para que o MNE, o MP e a PJ actuem concertadamente!?

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sábado

Uma sessão de Brainstorming no âmbito do caso de agressão ao jovem de Ponte-de-Sôr



É sabido que ainda não chegou ao MNE uma diligência das autoridades judiciárias para desencadear o processo de favorecer a justiça no caso da agressão ao jovem de Ponte-de-Sôr - que ainda se encontra em coma - e cujos agressores foram os manos, de 17 anos, ambos filhos do embaixador do Iraque acreditado em Portugal. 

Perante este lamentável mas habitual laxismo da Justiça lusa, apetece sugerir que se faça uma sessão de brainstorming entre MNE, MP e PJ para saber qual deles dá o 1º passo...

Mas é bom que o façam rapidamente, não vá a vítima das agressões falecer até lá e os portugueses morrerem de remorsos...

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sexta-feira

Manuel Monteiro serve prato frio a Paulo Portas


Manuel Monteiro esperou este tempo todo para servir um prato de vingança fria a Paulo Portas, denunciando a sua ambição desmedida, a instrumentalização que faz do CDS - subordinando-o a interesses obscuros e a um partido miserável e antidemocrático, como é o MPLA, em Angola. 
- De facto, P. Portas, mesmo já não estando na liderança do CDS, não deixa condicionar o partido e de ser o "submarino" no seu próprio seio. Contudo, aqui a novidade reside em colar um partido democrático (cds) a um partido antidemocrático (mpla) que apoia um ditador que manda prender cidadãos por estarem a ler poesia num espaço público. Foi isto que o miserável PPortas subscreveu, colando o partido do Largo do Caldas à pior tradição centralista, comunista, de inspiração sovieto-cubana que, aliás, formou intelectual e ideologicamente Eduardo dos Santos e o partido que ele dirige há mais de 30 anos. 
- É, pois, tudo miserável neste novo-velho cds - que já não se distingue dum partido africano que defende a economia centralizada, o partido único, a não liberdade de imprensa, o delito de opinião e, claro, o encarceramento daqueles que gostam de ler poesia. Como, aliás, fez Raul Castro em Cuba, já que a escola é a mesma... 
- No fundo, pouco ou nada hoje distingue Eduardo dos Santos de Paulinho Portas. Aquilo que os diferencia é, no fundo, a riqueza que um tem e o outro passou a querer ter, enriquecendo miseravelmente com a política e utilizando-a para atingir esses objectivos. Custe o que custar, revelando o pior que a política tem em Portugal. 

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quarta-feira

O frenesim do doutor Marcelo: omissões perigosas num Verão que virou inferno

Já se tornou hábito, para não dizer corriqueiro, ver MRS em tudo o que é festa e festança, como se fosse a Dona Constança. A sua omnipresença abrange a área do desporto (muito popularucha), aos negócios, ao turismo, enfim, a tudo o que envolve níveis de popularidade a que o actual PR não consegue resistir.

Porém, e tendo em linha de conta que o Portugal continental e ilhas (em especial o Funchal, na Madeira) estão a arder - seria curial que o PR se desocultasse dos biombos da bola e do Brasil por onde tem passado largos dias, e mostrasse serviço à comunidade - que anda com as mangueiras nas mãos e reclama auxilio de meios aéreos que nunca chegaram para combater os respectivos fogos. 

O PR já devia ter marcado presença nos locais críticos e, juntamente com o Governo, autarquias, protecção Civil e demais entidades competentes - reavaliar a situação em ordem a que os erros dos anos anteriores não se repitam nos seguintes com maior gravidade, o que revela que ou somos burros ou irresponsáveis, ou ambas as coisas simultaneamente, o que ainda é mais grave.

E se assim é, talvez haja uma correlação entre aquela "futebolite" de MRS, a estrutural incompetência da autarquias por nada terem antecipado e planeado (no continente e ilhas) e o tempo que, brincalhão como é, põe tudo e todos à prova, e após ter queimado uns milhares de hectares de floresta e ter queimado umas vivendas - vai-se embora de forma imperceptível, tal como chegou. 

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segunda-feira

A Vida - por Nuno Júdice - enquadrado por A. Einstein -

A Vida

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua 
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam 
quando não se espera, o atraso na preocupação 
dos teus olhos, e as nuvens que caíram 
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações 
a abrir-se para dentro e para fora 
dos sentidos que nada têm a ver com círculos, 
quadrados, rectângulos, nas linhas 
rectas e paralelas que se cruzam com as 
linhas da mão; 

a vida que traz consigo as emoções e os acasos, 
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram 
e dos encontros que sempre se soube que 
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com 
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo 
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada, 
sob a luz indecisa que apenas mostra 
as paredes nuas, de manchas húmidas 
no gesso da memória; 

a vida feita dos seus 
corpos obscuros e das suas palavras 
próximas. 

Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento" 
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domingo

Evocação de S. Francisco de Assis -


Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível.
São Francisco de Assis
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A Palavra Mágica - por Vergílio Ferreira -

Género:Conto.

Nunca o Silvestre tinha tido uma pega com ninguém. Se às vezes guerreava, com palavras azedas para cá e para lá, era apenas com os fundos da própria consciência. Viúvo, sem filhos, dono de umas leiras herdadas, o que mais parecia inquietá-lo era a maneira de alijar bem depressa o dinheiro das rendas. Semeava tão facilmente as economias, que ninguém via naquilo um sintoma de pena ou de justiça – mesmo da velha –, mas apenas um desejo urgente de comodidade. Dar aliviava. Pregavam-lhe que o Paulino ia logo de casa dele derretê-lo em vinho, que o Carmelo não comprava nada livros ou cadernos ao filho que andava na instrução primária. Silvestre encolhia os ombros, não tinha nada com isso. As moedas rolavam-lhe para dentro da algibeira e com o mesmo impulso fatal rolavam para fora, deixando-lhe, no sítio, a paz.

Ora um domingo, o Silvestre ensarilhou-se, sem querer, numa disputa colérica com o Ramos da Loja. Fora o caso que ao falar-se, no correr da conversa, em trabalhadores e salários, Silvestre deixou cair que, no seu entender, dada a carestia da vida, o trabalho de um homem de enxada não era de forma alguma bem pago. Mas disse-o sem um desejo de discórdia, facilmente, abertamente, com a mesma fatalidade clara de quem inspira e expira. Todavia o Ramos, ferido de espora, atacou de cabeça baixa:
– Que autoridade tem você para falar? Quem lhe encomendou o sermão?
– Homem! – clamava o Silvestre, de mão pacífica no ar. – Calma aí, se faz favor. Falei por falar.
– E a dar-lhe. Burro sou eu em ligar-lhe importância. Sabe lá você o que é a vida, sabe lá nada. Não tem filhos em casa, não tem quebreiras de cabeça. Assim, também eu.
– Faço o que posso – desabafou o outro.
– E eu a ligar-lhe. Realmente você é um pobre-diabo, Silvestre.
Quem é parvo é quem o ouve. Você é um bom, afinal. Anda no mundo por ver andar os outros. Quem é você, Silvestre amigo? Um inócuo, no fim de contas. Um inócuo é o que você é.
Silvestre já se dispusera a ouvir tudo com resignação. Mas, à palavra «inócuo», estranha ao seu ouvido montanhês, tremeu. E à cautela, não o codilhassem por parvo, disse:
Inoque será você.
Também o Ramos não via o fundo ao significado de «inócuo». Topara por acaso a palavra, num diálogo aceso de folhetim, e gostara logo dela, por aquele sabor redondo a moca grossa de ferro, cravada de puas. Dois homens que assistiam ao barulho partiram logo dali, com o vocábulo ainda quente da refrega, a comunicá-lo à freguesia:
– Chamou-lhe tudo, o patife. Só porque o pobre entendia que a jorna de um homem é fraca. Que era um paz-de-alma. E um inoque.
– Que é isso de inoque?
– Coisa boa não é.
Queria ele dizer na sua que Silvestre não trabalhava, que era um lombeiro, um vadio.
Como nesse dia, que era domingo, Paulino entrara em casa com a bebedeira do seu descanso, a mulher praguejou, como estava previsto, e cobriu o homem de insultos como não estava inteiramente previsto:
– Seu bêbedo ordinário. Seu inoque reles.
Quando a palavra caiu da boca da mulher, vinha já tinta de carrascão.
E desde aí, inoque significou, como é de ver, vadio e bêbedo.
Ora tempos depois apareceu na aldeia um sujeito de gabardina, a vender drogas para todas as moléstias dos pobres. Pedra de queimar carbúnculos, unguentos de  encoirar, solda para costelas quebradas. Vendeu todo o sortido. Mas logo às primeiras experiências, as drogas falharam. Houve pois necessidade de marcar a ferro aquela roubalheira de gabardina e unhas polidas. E como o vocabulário dos pobres era curto, alguém se lembrou da palavra milagrosa do Ramos. Pelo que, inoque significou trampolineiro ou ladrão dos finos. Mas como havia ainda os ladrões dos «grossos», não foi difícil meter dentro da palavra mais um veneno.
Como, porém, as desgraças e a cólera do povo pediam cada dia termos novos para se exprimirem, «inócuo» foi inchando de mais significações. Quando o Rainha deu um tiro de caçadeira, num dia de arraial, ao homem da amante, chamaram-lhe, evidentemente, inoque, por ser um devasso e um assassino de caçadeira. Daí que fosse fácil meter também no inoque o assassino de faca e a croia de porta aberta.
«Inócuo» dera volta à aldeia, secara todo o fel das discórdias, escoara todo o ódio da população. A moca grossa de ferro, seteada de puas, era agora uma arma terrível, quase desleal, que só se usava quando se tinha despejado já toda a cartucheira de insultos. Até que o Perdigão dos Cabritos entrou pela ponte norte da aldeia, com o cavalo carregado de reses, num dia de feira, e se azedou com o taberneiro, quando trocava um borrego por vinho. De olhos chamejantes, perdido, já no quente da refrega, o taberneiro atirou-lhe o verbo da maldição. Houve quem achasse desmedida a vingança do homem. Perdigão arreou:
Inoque será você.
Também ele não sabia que veneno tinham despejado na palavra; mas, pelo sim pelo não, aliviou. E pela tarde, enfardelou o termo infame com as peles da matança, e abalou com ele pela ponte sul. Longos meses a palavra maldita andou por lá a descarregar o ódio das gentes. Até que um dia voltou a entrar na aldeia, agora pela ponte sul que dava para a vila, e não pela ponte norte que levava a terras sem nome. Vinha em farrapos, na boca de um caldeireiro, mais estropiada, coberta da baba de todos os rancores e de todos os crimes. Quando deitava um pingo num caneco de folha, o caldeireiro pegou-se de razões com o freguês. O dono do caneco correu uma mão amiga pelas costas do vagabundo:





– Lá ver isso, velhinho. O combinado foram cinco tostões.
E «inócuo» significou um nome feio para um homem. Então o ajudante, ou o que era, do caldeireiro, tentou deitar água na fogueira.
– Cale-se também você, seu noque ordinário. A mim não me mata você à fome como fez a seu pai.
Porque «inócuo» também queria dizer parricida. Então o Ramos, que passava perto, tomou a palavra excomungada nas mãos e pediu ao velho que a abrisse, para ver tudo o que já lá tinha dentro. Um cheiro pútrido a fezes, a pus, a vinagre, alastrou pelo espanto de todos em redor.
Com os dedos da memória, o caldeireiro foi tirando do ventre do vocábulo restos de velhos significados, maldições, ódios, desesperos. «Inócuo» era «bêbedo», «ladrão», «incendiário», «pederasta», e, uma que outra vez, um desabafo ligeiro como «poça» ou «bolas». Para o calão da gente fina, que topara a palavra na cozinha, nos trabalhos do campo, soube-se um dia que significava ainda «escroque», souteneur, e mais.
A aldeia em peso tremeu. Era possível a qualquer apanhar com o palavrão na cara e ficar coberto de peste. Eis porém que uma vez o filho do Gomes, que andava no colégio da vila, insultado de inoque por um colega, numa partida de bilhar, lembrou-se à noite de ver no dicionário a fundura vernácula25 da ofensa. Procurou inoque. Não vinha. Procurou noque. Também não vinha. Furioso, buscou à toa, quinoque, moque, soque. Nada. Quando a mãe o procurou, para ver se estudava, encontrou-o às marradas no dicionário. Choroso, o rapaz declarou:
– O meu pagnon26 chamou-me inoque, mãe. Queria saber o que era. Mas não vem no dicionário.
– Não vejas! – clamou a mulher, de braços no ar. – Deixa lá! Não te importes.

– Mas que quer dizer?
Coisas ruins, meu filho. Herege, homem sem religião e mais coisas más.
Não vejas!
Começaram então a aparecer as primeiras queixas no tribunal da vila, contra a injúria de noque, inoque e, finalmente, de «inócuo», consoante a instrução de cada um. Como a palavra estropiada era um termo bárbaro nos seus ouvidos cultos, o juiz pedia a versão da injúria em linguagem correta, sendo essa versão que instruía os autos.
– Chamou-me noque.
– Absolutamente. Mas que queria ele dizer na sua?
– Pois queria dizer que eu era ladrão.
E escrevia-se «ladrão». Pelo mesmo motivo, gravava-se a ofensa, de outras vezes, nos termos de «assassino», «devasso» ou «bêbedo».
Ora um dia foi o próprio Bernardino da Fábrica que moveu um processo ao guarda-livros pela injúria de «inócuo». Metida a questão nos trilhos legais, o Bernardino  procurou o juiz, para ver se podia ajustar, previamente, uma bordoada firme no agressor. Mas aí, o juiz atirou uma palmada à coxa curta, clamou:
– Homem! Agora entendo eu. Noque era «inócuo»!
E admitindo que o vocábulo contivesse um veneno insuspeito, pegou num dicionário recente, o último modelo de ortografia e significados. Então pasmou de assombro, perante o escuro mistério que carregara de pólvora o termo mais benigno da língua: «inócuo» significava apenas «que não faz dano, inofensivo».
E pôs o dicionário aberto diante da ofensa de Bernardino. O industrial carregou a luneta, e longo tempo, colérico, exigiu do livro insultos que lá não estavam.
– Nada feito – repetia o juiz. – O homem chamou-lhe, corretamente, «pessoa incapaz de fazer mal a alguém».
– Mas há a intenção – opôs o advogado, mais tarde, quando se voltou ao assunto. – Há o sentido que toda a gente liga à palavra.
Nada feito – insistia o juiz. – «Inócuo» é «inofensivo», até nova ordem. Então o advogado desabafou. Também ele sabia, como toda a gente culta, que «inócuo» era um pobre-diabo de um termo que não fazia mal a ninguém. Sabia-o, com um saber analítico, desde as aulas de Latim do seu padre-mestre. Mas não ignorava também que o ódio humano nem sempre conseguia razões para se justificar. E nesse caso, qualquer palavra, mesmo inofensiva, era um pendão desfraldado no pau alto do ódio. Bernardino fora ofendido. Mas podia amanhã querer ofender e as razões serem curtas para o seu rancor. Uma palavra informe, soprada de todos os furores, seria então a melhor arma. Despir o mastro da bandeira seria desnudar-se na dureza bárbara do pau. «Inócuo» era uma maravilha para a última defesa da racionalidade humana, pelos ocos esconderijos onde podiam ocultar-se todos os rancores e maldições. «Inócuo» era um benefício social. Não havia que emendar-se a vida pelo dicionário. Havia que forçar-se o dicionário a meter a vida na pele.
– Cultive-se o «inócuo». Salvemo-lo, para nos salvarmos.
Desgraçadamente, porém, os receios do advogado eram vãos. A vida, de facto, emendara o dicionário. Como bola de neve, «inócuo» rolara do ódio alto dos homens e longo tempo levaria a derreter ao calor da compreensão e da justiça. Foi assim que o filho do Gomes, depois de ter encontrado a correspondência vernácula da injúria do pagnon, tentou reabilitar a palavra excomungada. Esbaforido, foi com o dicionário aberto no sítio maldito, da mãe para o pai, do pai para os amigos. Mas ninguém o entendeu. Noque ou «inócuo» era um anátema verde de pus.
Que importa o que dizem? – clamou o heroísmo do rapaz. – Podem chamar­‑me inoque ou «inócuo», que não ligo. Agora sei o que quer dizer.
Dias depois, porém, um colega precisou de o insultar, e arremessou-lhe outra vez com o termo nefando. Toda a gente conhecia já a opinião do dicionário. Mas o furor era sempre mais forte do que um simples livro impresso.
Pelo que, nessa noite, o filho do Gomes não dormiu, preocupado apenas em descobrir uma maneira eficaz de esborrachar o colega, para ter mais tento na língua.

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